terça-feira, 12 de outubro de 2010

Debaixo do seu Guarda-Chuva

Estava andando a alguns quilômetros por hora em minha bicicleta rosa e florida que havia ganhado no meu aniversário de 13 anos. Finalmente haviam construído uma ciclovia, ou pintado bicicletinhas no asfalto, ou estavam tentando evitar acidentes com ciclistas ou, enfim. Eu já poderia andar seguramente de bicicleta pelas ruas movimentadas do meu bairro.
Cantarolando e bem sorridente, eu procurava algum estabelecimento que pudesse matar aquilo que corroía minha garganta e me deixava meio estressada. Avistei uma lanchonete e mirei o pneu dianteiro em direção a ela, levei uma buzinada, quase morri ali. Não liguei e segui em frente, precisava mesmo de um bom líquido.
Parei em frente a lanchonete e apoiei a minha bicicleta na parede. Entrei e pedi um suco de laranja natural sem açúcar. Estava eu satisfeita com minha garganta refrescada naquele belo dia de sol, quando de repente começa a chover. Lembrei que minha bicicleta estava do lado de fora e disse que precisava tirá-la da chuva. O atendente da lanchonete virou para mim e disse:
- Acho que aquele menino já está fazendo isso para você.
Sai desesperada de lá e comecei a correr atrás do dito cujo. O garoto corria com minha bicicleta nas mãos, o que era curioso, pois se eu tivesse roubado uma bicicleta eu subiria nela para fugir de sua dona desesperada que correria muito, mas muito rápido atrás de mim.
Depois de correr muito atrás dele, consegui me aproximar. Ele esperou eu tocar em suas costas para subir na bicicleta e me deixar com cara de idiota, morta de cansaço no meio da rua. Deitei no chão, toda molhada e suja de lama e fiquei lá por alguns instantes de olhos fechados.
Quando abri meus olhos eu vi o vizinho da frente de cabeça para baixo e pensei estar delirando. Fechei e abri os olhos novamente, ele continuava de cabeça para baixo, mas dessa vez sorriu e perguntou se estava tudo bem. Eu coloquei a mão na cabeça e disse que precisava recuperar minha bicicleta. Ele disse que eu estava toda suja, deitada no chão, no meio da rua e que eu não deveria me preocupar em recuperar uma bicicleta.
Ele me estendeu a mão e me ajudou a levantar. Caminhamos sob o seu guarda-chuva até chegarmos na frente de nossas casas. No caminho ele disse que adorou o presente, perguntou como eu sabia que ele gostava de Bis de Laranja, e disse que achava que os tênis não lhes serviriam, pois ele já havia passado dos 32 faziam muitos anos.
Eu respondi sua pergunta e disse que o presente deveria ser fofo assim como ele, por isso comprei os menores que tinham. Ele sorriu e limpou meu rosto que estava sujo com respingos de lama. Enfim chegamos em casa e paramos entre nossas casas. Eu agradeci e pedi desculpas por ter agarrado ele na escola. Ele disse que já havia esquecido, mas que já que eu havia tocado no assunto, gostaria de saber o porquê de eu ter feito aquilo.
Depois de eu dizer ele sorriu e disse que não era nada da prima distante, que ela só o convidou para a festa e que pegou em sua mão quando o viu do lado de fora, para que ele entrasse já que estava com vergonha.
Eu pedi desculpas de novo e disse que era melhor eu entrar e tomar um banho. Sai de baixo do guarda-chuva dele e ele me segurou pelo braço.
- Ei! - Ele me chamou e eu o olhei com cara de interrogação.
- Você é louca mas é legal. - Ele me deu um beijo na bochecha e sorriu - Espero que nos falemos mais vezes.
Eu sorri meio sem reação e corri para dentro de casa. Bati a porta e dei um grito muito alto, aquele tinha sido um dos melhores dias da minha vida. - Espero que ele não tenha me ouvido gritar.

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